Ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica falece aos 89 anos


Morreu José Mujica, ex-presidente e ícone da esquerda latino-americana

No dia 13 de março, o ex-guerrilheiro, ex-presidente e ícone da esquerda latino-americana, José Alberto “Pepe” Mujica Cordano, faleceu aos 89 anos, no Uruguai. Mujica lutava contra um câncer de esôfago e estava em seu sítio nos arredores de Montevidéu, onde se dedicava ao cultivo de flores e hortaliças.

Conhecido como o “presidente mais pobre do mundo” devido ao seu estilo de vida simples, sua preferência por dirigir um fusca dos anos 1970, doar parte de seu salário para projetos sociais e suas reflexões políticas com forte teor filosófico, Mujica foi presidente do Uruguai entre 2010 e 2015.

Legado de Mujica na América Latina

Defensor da integração dos países latino-americanos e caribenhos, Mujica se destacou como uma referência da esquerda na região. Durante sua presidência, diversos líderes de esquerda e centro-esquerda assumiram o poder em países como Venezuela, Argentina, Equador, Bolívia e Brasil.

Em entrevista ao jornal espanhol El País em novembro de 2024, Mujica afirmou: “Me dediquei a mudar o mundo e não mudei nada, mas me diverti. E gerei muitos amigos e muitos aliados nessa loucura de mudar o mundo para melhorá-lo. E dei sentido à minha vida”.

De guerrilheiro a presidente

Nascido em 1935 em uma família humilde nos arredores de Montevidéu, Mujica ingressou na política ao fundar o Movimento de Libertação Nacional Tupamaros, um grupo guerrilheiro urbano que atuou nas décadas de 1960 e 1970, enfrentando a ditadura civil-militar no Uruguai.

Sua participação no Tupamaros resultou em 14 anos de prisão, com Mujica sendo preso quatro vezes, ferido por seis tiros e escapando da prisão em duas ocasiões. Sua história foi retratada no filme “Uma Noite de 12 Anos”, dirigido por Álvaro Brechner.

Presidência e legado

Após o fim da ditadura, Mujica participou da criação do Movimento de Participação Popular, integrante da Frente Ampla, que o levou à presidência do Uruguai. Em seu mandato, promoveu legislações progressistas, como a descriminalização do aborto, a legalização do casamento igualitário e da maconha.

O país experimentou uma redução significativa da pobreza durante seu governo, passando de 39% em 2004 para 11,5% em 2015. Além disso, programas de transferência de renda foram expandidos, assim como o salário mínimo, a distribuição de laptops para estudantes e professores, e políticas habitacionais para famílias de baixa renda.

Integração latino-americana

Mujica sempre defendeu a importância da integração dos países latino-americanos, acreditando que a união da região era fundamental para o desenvolvimento. Ele ressaltava que a América Latina representa apenas cerca de 7% da população mundial e que a integração era crucial para preservar a soberania diante das influências externas.

Para Mujica, era essencial que os países da região se unissem, independentemente de suas orientações políticas, para que pudessem influenciar as mudanças globais. Seu legado de simplicidade, ética de vida e luta por justiça social o tornaram uma referência global.

Em 2019, Mujica foi eleito senador novamente, mas renunciou ao cargo em 2020 devido à pandemia de covid-19, declarando: “Há uma hora de chegar e uma hora de partir na vida”. Seu legado e ideais continuam a influenciar a política e a sociedade latino-americana.

O ex-presidente do Uruguai, José Mujica, defendeu em outubro de 2023 a importância de uma política de colaboração entre os latino-americanos para fortalecer a região no cenário mundial. Durante o lançamento da Jornada Latino-americana e Caribenha de Integração dos Povos, em Foz do Iguaçu (PR), Mujica ressaltou a necessidade de união para potencializar a força da América Latina.

Em dezembro de 2024, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva visitou o sítio de Mujica, no Uruguai, para condecorá-lo com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, uma homenagem destinada a personalidades estrangeiras. Lula destacou Mujica como a pessoa mais extraordinária que conheceu entre os presidentes, enfatizando que a medalha concedida não era pelo cargo que ocupou no Uruguai, mas sim pela sua essência como ser humano.

A trajetória de José Mujica é marcada por sua atuação como guerrilheiro, ativista e político, sendo eleito presidente do Uruguai em 2010. Conhecido por seu estilo de vida simples e suas ideias progressistas, Mujica conquistou admiradores ao redor do mundo, incluindo líderes políticos como Lula da Silva.

A relação entre Mujica e Lula é pautada pela admiração mútua e pelos ideais de justiça social e integração latino-americana. Ambos líderes compartilham uma visão de unidade entre os países da região para enfrentar desafios comuns e promover o desenvolvimento sustentável.

A condecoração de Mujica por Lula simboliza o reconhecimento do legado deixado pelo ex-presidente uruguaio, que se destacou por sua autenticidade, simplicidade e compromisso com os valores humanos. A Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul é um gesto de apreço não apenas pela trajetória política de Mujica, mas também por sua integridade e coerência ao longo de sua vida.

A declaração de Mujica sobre a necessidade de colaboração entre os latino-americanos ecoa a importância de unir esforços em prol do bem-estar e progresso da região. A integração dos povos latino-americanos é essencial para fortalecer a voz da América Latina no cenário internacional e enfrentar desafios globais de forma conjunta.

O exemplo de Mujica e Lula demonstra que a cooperação e solidariedade entre os países da América Latina são fundamentais para construir um futuro mais justo e próspero para todos os cidadãos da região. A condecoração de Mujica com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul é um símbolo desse compromisso com a unidade e fraternidade entre os povos latino-americanos.

Em um mundo cada vez mais interconectado, a colaboração entre os países da América Latina se torna ainda mais relevante para superar desafios como a desigualdade, a pobreza e as crises globais. A união de esforços e a solidariedade entre os latino-americanos são pilares fundamentais para construir um futuro de prosperidade e harmonia na região.

A relação entre Mujica e Lula representa um exemplo inspirador de cooperação e respeito mútuo, demonstrando que as diferenças políticas e ideológicas podem ser superadas em nome de um objetivo comum: o bem-estar e a dignidade de todos os povos da América Latina. A condecoração de Mujica por Lula é um gesto simbólico, mas carregado de significado, que reafirma a importância da solidariedade e fraternidade entre os países da região.

A mensagem de Mujica sobre a necessidade de uma política de colaboração entre os latino-americanos ressoa como um chamado à união e à solidariedade em tempos de incerteza e divisão. A integração dos povos da América Latina é um caminho promissor para fortalecer a região e construir um futuro de paz e prosperidade para todos os seus habitantes.