RS: O culpado se reflete no espelho

A questão climática e a responsabilidade coletiva

O paradoxo da sociedade de consumo

O domínio do fogo foi a primeira forma de emissão de carbono. O desequilíbrio começou na idade da pedra. Seguiu pelas fogueiras, forjas, máquinas a vapor, indústrias. A sociedade de consumo mundial de oito bilhões de pessoas produz espelhos em escala monumental para o ser humano se enxergar. Mas para certos temas, eles são inúteis. A questão climática é uma delas, a responsabilidade é de todos. E não adianta subir a montanha, há risco de desabamento ou de se ficar isolado. Somos todos culpados, mostra o espelho triste das águas barrentas das enchentes.

A falta de conscientização e prioridades equivocadas

A dimensão da tragédia no Rio Grande Sul é prova disso. Enquanto o estado naufragava dias atrás, a mídia da província brasileira se deliciava com o playback de Madonna em Copacabana. E as redes sociais se escandalizavam mais com as simulações de sexo do que com as mortes de dezenas de compatriotas. Não só governos têm falhado na conscientização da sociedade, mas também empresas, líderes políticos, artistas, formadores de opinião. Muito se fala sobre transição, mas não se constroem pontes para as mudanças.

A falta de uma agenda clara no enfrentamento do aquecimento global

Não há agenda clara no país para enfrentar os problemas advindos do aquecimento global – nem preventiva, nem reativa. A prioridade do Congresso é gastar. Do governo também. Mas cada um à sua própria maneira. Matérias sobre energia ganham jabutis que poderiam ser identificados como cágados. Há matérias importantes para dar segurança à transição energética, atrair investidores para esse setor e regular de forma racional os próximos passos da geração de energia.

Desafios e perspectivas para a transição energética sustentável

Governo e legislativo têm a missão de criar os trilhos por onde a transição energética vai passar, além de debater melhoria nas normas ambientais. Devem incluir a visão conciliatória entre a recuperação de áreas degradadas, preservação e desenvolvimento sustentável. Mesmo importantes lideranças do agronegócio são permeáveis ao debate e estão conscientes da imperiosa adaptação de práticas e processos de produção, armazenamento e transporte em equilíbrio com a natureza.

A importância do debate e da ação conjunta

Sem um debate profundo, conduzido pelo governo, não se encontrará a solução. Ficar nas trincheiras ideológicas do ambientalismo radical ou do furor negacionista de que nada está acontecendo não é opção. É hora de produzir luz para esse debate, não fogo.

Por Márcio de Freitas – Colunista Bússola