
Dona Hipólita é reconhecida como heroína brasileira
Quase dois séculos após sua morte em 1828, Dona Hipólita Jacinta Teixeira de Mello finalmente recebeu o reconhecimento como heroína brasileira. No dia 6 de janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 15.086/2025, aprovada pelo Congresso Nacional, que inscreve o nome de Dona Hipólita no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Livro de Aço e o reconhecimento
O Livro de Aço está localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O primeiro nome inscrito no livro foi o de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, incluído em 1989. Além de Tiradentes, personalidades como Machado de Assis, Luiz Gonzaga, Zumbi dos Palmares e Maria Beatriz Nascimento também estão registradas no livro.
Contribuição de Dona Hipólita
A historiadora, pesquisadora, escritora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Heloísa Starling, ressalta a importância da contribuição de Dona Hipólita para a história do Brasil. Ela destaca que Hipólita ultrapassou barreiras políticas e defendeu valores como liberdade, democracia, independência e a República, tornando-se um exemplo para as mulheres de hoje.
Ela é autora de obras como “Independência do Brasil: as Mulheres que Estavam Lá”, publicado em 2022, que resgata a história de Hipólita em um dos capítulos. Os esforços de Heloísa Starling para valorizar mulheres como Hipólita levaram ao reconhecimento da inconfidente como heroína brasileira.
Legado de Dona Hipólita
Nascida em Prados (MG) em 1748, Hipólita fazia parte da elite de Vila Rica e demonstrava uma personalidade forte, destemida e intelectual. Diferenciando-se das mulheres de mesma classe econômica, ela estudava, falava múltiplos idiomas e auxiliava Tiradentes com traduções de livros que inspiraram a Conjuração Mineira.
Após a rebelião, Hipólita teve seus bens apreendidos pelo governo, mas conseguiu reavê-los quase integralmente devido a sua rede de contatos e habilidades estratégicas. Sua contribuição foi fundamental para o movimento de independência do Brasil de Portugal.
Heloísa Starling destaca que o esforço para resgatar a memória de personagens como Hipólita é essencial para reconhecer sua importância na história do Brasil e como referência para o país. O reconhecimento de Dona Hipólita como heroína brasileira representa um marco na valorização das mulheres na história nacional.
Em 2023, Dona Hipólita recebeu um lugar no Panteão dos Inconfidentes, em Ouro Preto, e o estilista Ronaldo Fraga fez um estandarte em homenagem a ela, colocando-o em frente à lápide de Tiradentes. A historiadora brincou dizendo que “Tiradentes vai ficar nervoso” com a homenagem a Hipólita.
Zélia Duncan rebate comentário sobre presença de Hipólita
A cantora Zélia Duncan, que estava presente no evento, logo rebateu a declaração feita pelo político: “É bom ele já ir se acostumando com a presença da Hipólita”.
Orgulho para Prados
O reconhecimento de Hipólita como heroína foi comemorado pela prefeitura da cidade natal dela, Prados.
“Para Prados, esse momento tem um significado especial. Ele destaca o papel da cidade como um berço de personagens que ajudaram a moldar a história do Brasil. A inclusão de Hipólita no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria reforça a importância da valorização da nossa cultura e memória histórica”, diz uma publicação em rede social.
Na cidade, antes mesmo dos reconhecimentos recentes, foi erguido um monumento em homenagem a ela. O monumento registra a medalha da inconfidência póstuma recebida por ela em 1999, a pedido da então procuradora de Minas, Cármem Lúcia, atual ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), que pediu a homenagem ao então governador Itamar Franco.

O biólogo Matteus Carvalho Ferreira, morador de Prados, acredita que o monumento na praça central da cidade, instalado em 2000, contribuiu para que a população local buscasse conhecer melhor a história de Hipólita Jacinta.
Segundo ele, foi o que lhe despertou, desde a infância, a curiosidade sobre a inconfidente. Do monumento, passou a buscar outros pontos de referência ligados à figura histórica.
Matteus conta que, pelas trilhas da Estrada Parque Passos dos Fundadores, situada aos pés da Serra São José, é possível acessar as ruínas da Fazenda Ponta do Morro, que pertenceu à Hipólita e que foi palco de diversas reuniões dos inconfidentes.

“Nos últimos anos, com o trabalho de resgate das informações sobre as mulheres da Inconfidência Mineira, mais textos e materiais foram surgindo descrevendo a sua incrível trajetória de luta e trazendo o reconhecimento merecido, ainda que tardio, para sua história”, avalia o biólogo. De acordo com ele, Hipólita se tornou um motivo de orgulho para os moradores de Prados.
Nas salas de aula
Há dez anos, Quando chegou em Prados para ser professor de história, Rafael Sousa, fez questão de leva à sala de aula o nome de Hipólita. Ele é professor de ensino fundamental e médio na escola estadual Doutor Viviano Caldas.
“Desde que eu cheguei na escola eu venho trazendo a história da Dona Hipólita porque sempre me fascinou muito. Desde a época da minha graduação eu já lia sobre ela, nas minhas pesquisas, eu encontrei documentos sobre ela, por exemplo, o testamento dela, isso já vinha me fascinando. Quando eu cheguei em prados, eu falei: nada como a gente dar uma aula de história partindo dos personagens da cidade, né?”
Sousa diz que com o projeto de Heloísa Starling, a história da heroína mineira passou a ser mais difundida e passou a incorporar os currículos de todas as escolas da região. “Os estudantes ficam fascinados. Eles gostam de saber que, na cidade deles, que a única mulher que participou da Conjuração Mineira, que era uma mulher poderosa para a época, dona de uma das maiores fazendas da região, e que tinha opinião política, tinha leitura, era uma mulher culta, era uma mulher dona de si, porque a Hipólita, a gente percebe nitidamente, era dona da vida dela, não se curvava para ninguém”, diz.
Para ele, a história brasileira tem sido recontada e o reconhecimento de Dona Hipólita é a prova disso. “Estamos vivendo uma época histórica em que a história tem sido recontada, né? E muitos personagens antes relegados ao esquecimento estão vindo à tona, como ex-escravizados, mulheres. A história tem sido contada também sobre outros pontos de vista, que não só o ponto de vista da elite dos homens desbravadores e heróis”, analisa o professor.
A partir deste ano, não apenas a escola de Sousa, mas todas as escolas brasileiras, deverão ensinar aos estudantes sobre as lutas das mulheres. A Lei 14.986/2024 torna obrigatório em todo o país, a partir de 2025, o estudo sobre as contribuições de mulheres à humanidade.
Os currículos dos ensinos fundamental e médio das escolas públicas e privadas deverão abordar as contribuições, as vivências e as conquistas femininas nas áreas científica, social, artística, cultural, econômica e política no Brasil e no mundo.
Outras histórias
No dia 29 de abril de 2023, a lápide de Hipólita foi incluída no Panteão da Inconfidência, em Ouro Preto, ao lado de Tiradentes e dos demais conjurados, o diretor do Museu da Inconfidência, Alex Sandro Calheiros de Moura, estava presente. Ele conta que desde que assumiu a diretoria, lutou por essa inclusão e pela valorização de pessoas que tiveram seu papel na história do Brasil apagado.
“Uma das primeiras coisas que percebi quando entrei no museu é que no Panteão só tinha homem”, diz. “Já tinha passado do tempo de um reconhecimento e de incluir ela no Panteão. Foi a primeira mulher que nós incluímos no Panteão dos Inconfidentes”. Como não foi possível localizar os restos mortais de Hipólita, uma caixa com terra recolhida da fazenda onde viveu será depositada dentro da lápide.
Pouco tempo depois, em maio de 2023, o deputado Jonas Donizette (PSB/SP), propôs o projeto de lei na Câmara dos Deputados, que resultaria na lei sancionada por Lula, que determinou a inscrição de Hipólita no livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. “Para o museu é uma felicidade, porque isso quer dizer também que a nossa ação foi acertada”, diz Moura.
De acordo com o diretor, o reconhecimento fortalece a necessidade de se olhar para outros atores da história do Brasil.
Hipólita: a heroína da pátria que mudou a história oficial do país
Recentemente, a figura de Hipólita Jacinta Teixeira de Melo entrou para o Panteão da Pátria e foi reconhecida como heroína nacional. Esse fato tem impacto não apenas simbólico, mas também na forma como enxergamos a história do Brasil. Segundo especialistas, a presença de Hipólita no Panteão e sua nova posição como heroína da pátria contribuem para mudar a mentalidade em relação à história oficial do país, que historicamente sempre valorizou a narrativa dos homens.
De acordo com pesquisadores e historiadores, o resgate da participação das mulheres na história do Brasil, assim como de outros sujeitos históricos, ainda é um processo recente. No entanto, a comunidade acadêmica tem se dedicado cada vez mais a pesquisas que evidenciam a importância e a participação das mulheres, incluindo a figura de Hipólita Jacinta Teixeira de Melo. Esse reconhecimento rápido e importante tem contribuído para ampliar a visão sobre a história do país.
O Museu da Inconfidência, onde a história de Hipólita é preservada e divulgada, tem planos de expansão de acervo e mudanças em sua abordagem. Para o diretor do museu, um espaço histórico como esse é um lugar de memória seletiva, onde é preciso fazer escolhas sobre o que será contado. A intenção é ampliar a narrativa, sem negar a contribuição das elites, mas também reconhecendo a importância de outros grupos sociais e figuras históricas, como Hipólita.
Essa mudança de foco e abordagem já tem apresentado resultados positivos para o Museu da Inconfidência. O público visitante aumentou significativamente, passando de cerca de 200 mil pessoas em 2019 para 347 mil em 2023. Além disso, o perfil do museu nas redes sociais também ganhou mais seguidores, saindo de 2,3 mil para os atuais 12 mil. Esses números refletem o interesse do público em conhecer e valorizar a história de figuras como Hipólita.
Para o ano de 2025, a instituição planeja focar em pesquisas e acervos que evidenciem ainda mais a participação histórica da população negra e indígena, ampliando assim a diversidade de narrativas e contribuições para a história do Brasil.
*Colaborou Léo Rodrigues
Fonte: Agência Brasil








